10.06.2006

O Padeiro Anarquista

Sem mais nem menos, a casa despejou-o na rua, a correr. Estava atrasado, de facto. Correu muito e depressa; tal como quem precisa de correr muito — por ter pressa, naturalmente. O boné queria desertar, que estas modernices das velocidades não lhe agradavam. Não fora, enfim, a vetusta e assaz limitadora idade do homem, que o impedia de correr tanto e com tanta pressa como se impunha face à pressa que tinha, e o infiel boné teria mesmo ficado para trás, refastelado no chão, a ressonar como uma ignóbil cartola fanfarrona.

O homem corria, o boné resmungava. De repente, o homem parou. O boné silenciou-se, expectante, perscrutando indícios de convergência na sua pretensão de preguiça. “Grande merda! Esqueci-me do pão. Trouxe o saco vazio. Há que voltar para trás”. Agora movia-se ainda mais veloz, porque tinha ainda mais pressa. Afinal, será que um padeiro que se esquece do pão é um padeiro que se preze? — indagou-se. E enquanto cozia estes modestos pensamentos, a viagem fez-se, mas não em tão pouco tempo como ele gostaria, dada a pressa que tinha.

Discutiu e praguejou mundanices, mas por fim a casa lá deu a porta a torcer e cedeu, deixando-se uma vez mais inocular pela chave, pobre rapariga, conspurcada e infectada de cada vez que saía à rua. Sem desperdiçar tempo, avançou presto para a casinha do forno com a intenção de, em escassos segundos, pegar no pão, pô-lo no saco e voltar a sair porta fora.

“Grande merda! Mas onde é que eu o pus?!?”. Na verdade, não sabia, e havia razões para não saber: depressa se lembrou — porque tinha muita pressa, cada vez mais, esclareça-se — que não tinha feito pão. E o céu estava há momentos em trabalho de parto, já se viam os primeiros cabelos do Sol. Nascia rapidamente. Mas sem pressa, que o Sol nunca tinha pressa de manhã.

O pobre padeiro, a correr, com muita, muita pressa, juntou os ingredientes no bom-velho alguidar de barro; amassou-os; deixou-os levedar depressa, porque tinha tanta pressa, tanta pressa, e não queria que faltasse um pão sequer nas mesas da aldeia. Que era para isso que ele ali estava, há tanto tempo, na aldeia. “Grande merda! Ainda não acendi o forno. Já devia estar quente e ainda nem cá estão as vides. Bem verdade é que quanto mais depressa mais devagar”. Mas o forno lá se acendeu, ainda estremunhado, e o seu secretário, o fogo, lá começou a escrever à máquina sobre molhos de vides e magros pedaços de madeira. Enquanto dactilografava, apareceram os primeiros candidatos para a entrevista de emprego, ansiosos por virem a preencher a vaga aberta para o lugar de pão. Simples porções de massa amalgamada envoltas em farinha, os moçoilos de tez pálida lá iam ganhando coragem ante o seu interlocutor, majestoso fogo, que os inquiria, minucioso, severo, em cada milímetro. Por fim, abrindo os braços, algo paternal, lá os deixava sair, alimentando esperanças de que tinham boas possibilidades de serem aceites e que aguardassem por um contacto nos próximos tempos.

O homem despejava os pães para o saco, ainda a escaldar de excitação, num ápice. Que estava desesperado com tanta pressa e a manhã já ia quase a meio. Reunira, finalmente, tantos pães quantos precisava, mais coisa menos coisa. Abriu a porta, com pressa, que estava quase a sucumbir a tanta pressa.

Nessa altura, contudo, apercebeu-se de algo estranho: o melancólico sino da aldeia entoava badaladas repetidas, chamando o povo para a missa. “Grande merda! Pois claro! Que grande burro que sou! Hoje é Domingo, porra!”. Ontem fora sábado, amanhã talvez segunda-feira. E eis pão de hoje. Feito a correr, mas não à pressa, apesar da enorme pressa que o padeiro teve. Teve, que agora já não a tinha. Acabou. Já não tinha mais pressa. Voltou para o forno, deixou-se adormecer. Despertou a meio da tarde. Para não deixar passar a folga em branco abriu uma garrafa de vinho especial. E fez uma açorda.

9.29.2006

O Guardador de Varas

Chegou à aldeia escapulido da mãe, ninfomaníaca sado-masoquista rural, de quem saíra havia então mais ou menos 17 anos. Tanto as suas características fisionómicas como os seus hábitos, sobretudo o modo de satisfazer as necessidades básicas, viriam a determinar o papel que lhe caberia naquela minúscula comunidade sem dor nem pecado.

Mal tinha pousado a sua modesta mala, Tó foi abordado por um grupo de aldeãos avesso à ideia de o ter por vizinho, sendo ele um rapaz tão mal formado, pior apessoado e pouco higiénico. Confrontados com os seus indefectíveis intentos de permanência, e após um breve período de reflexão em plenário, decidiram oferecer-lhe emprego como guardador-mor de todos os porcos da aldeia. E se depressa o pensaram melhor o fizeram, pondo em prática um sonho antigo dos suinicultores locais que apenas aguardava um executante.
No dia seguinte, pela manhã, Tó foi, a bem dizer, escoltado até um barraco abandonado, a uns bons quilómetros de distância da povoação, onde as beatas da aldeia trataram de lhe providenciar um mínimo de acomodação e condições de habitabilidade, sem deixarem de ter em conta a peculiaridade do hóspede. Depois, os homens construíram a pocilga comunitária onde, no final da tarde, as camionetas despejaram dezenas e dezenas de quadrúpedes suínos anafados, suculentos, roncantes.
O tempo, como sucede sempre que uma estória acontece, passou. Ali permanecia ele, portanto, sempre nas imediações do seu barraco no meio do monte, já lá iam alguns anitos. Era ele, Tó, que tratava dos porcos, pois outra coisa não fazia além disso. De sol a sol, óinc após óinc, dava-lhes de comer, de beber, limpava-lhes o focinho no fim das refeições, lavava-lhes os dentes, limava-lhes as unhas (manicure e pedicure), preparava-lhes banhos de lama, fazia-lhes limpezas à pele e escovava cada centímetro daqueles couros emporcalhados até se apresentarem luzidios e sem sujidade — o que comprovava com o teste do algodão.
Tratava os porcos melhor que a si próprio. Dedicava-se-lhes em absoluto. Falava com eles e, assim, acabou por emudecer progressivamente, subtraindo-se, gradualmente, a conversar com os aldeões; dava nome a cada um dos porcos mas esqueceu o próprio; passou a caminhar sobre os quatro membros e arrastava um outro; partilhava as rações e mamava nas tetas das porcas; chafurdava na lama e deixou de tomar banho; passava o tempo a discutir filosofia e a jogar à roleta russa com os suínos... uma verdadeira porcaria! Estava isolado do mundo humano, por isso elegera o seu próprio mundo, chiqueiro. Ou vice-versa.

Duas ou três vezes por semana, por alturas do final da tarde, os aldeões iam lá levar-lhe víveres diversos e ração para os porcos. Nessas alturas costumava esconder-se, à espreita, até que os homens terminassem de descarregar a mercadoria. Depois, nessas noites de despensa cheia acontecia invariavelmente lugar uma verdadeira orgia, cujo desfecho era não raramente ensombrado por tremendas lutas na lama. Grunhidos e roncos para todos os gostos. Os porcos! A verdade é que todos eram extremamente brincalhões, contudo também muito irascíveis e com os nervos à flor da pele — qualquer faíscazita e trepava-lhes logo a mostarda ao nariz.

Tó era feliz e não sabia o que mais pedir da vida; a não ser uma pocilga com quartos separados, para poder fazer outras porcarias sem ninguém ver. Para ele, aquele era o paraíso na terra, qual toucinho-do-céu, que nem nos seus sonhos mais pele de porco (cor-de-rosa, no caso) alguma vez esperara encontrar.

Mas um dia tudo isto teve um fim. Numa das costumeiras entregas semanais, os aldeões ouviram um ronco deveras diferente dos demais e, resolvendo investigar a proveniência do mesmo, descobriram a careca ao Tó (estava na mudança do pêlo), que foi apanhado com a boca no presunto. Como já antes andavam deveras apreensivos com a sanidade mental dos animais, a que alguns habitantes de aldeias mais próximas atribuíam práticas homossexuais e de bruxaria, desta feita os populares ficaram extremamente preocupados. Tó era, sem dúvida, um bom negócio para eles, mas o tratamento dos porcos estava cada vez menos convencional. Assim, aproveitaram as futuras visitas para se reaproximarem do moçoilo e tentar convencê-lo de que aquilo não era normal, que ele não era um porco e sim um ser humano (fosse lá o que isso fosse), e etc. e tal, blá blá blá blá blá.

Depois de tanto baterem no ceguinho — um tal de Orwell que nunca estava de acordo com nada do que se dizia —, lá acabaram por fazer com que Tó fosse consultar um médico. Aliás, para pagar a dita ao senhor doutor, toda a aldeia se juntou para fazer uma porquinha.

Numa tarde chuvosa de Fevereiro, chegou à povoação vizinha do Forno e, embora contrafeito e renitente, lá acabou por fazer soar a estridente campainha do doutor Costa Leta, reputado veterinário da região. O médico deu voltas e voltas, consultou compêndios, manuais e simpósios, mas no final lamentou muito, pois na verdade nada havia que estivesse ao seu alcance fazer por Tó. Por isso, pendurou o estetoscópio, lavou daí as mãos e, por mera cortesia comiserada, convidou o doente para jantar em sua casa, para a qual se retirou de imediato, profissionalmente frustrado. Afinal, em 40 anos de medicina nunca antes falhara em ajudar um paciente. “A vida é uma porca”, ruminava de si para si.
Para acalmar os nervos, o conceituado doutor dormiu uma sesta ronceira até ser acordado pela sua carismática esposa. “O teu convidado já chegou há um pedaço. Tinha um ar muito emporcalhado”, anunciou ela, que para o reconfortar e recobrar daquele falhanço inusitado preparara uns rojões de grunhir aos céus e uma cabidelinha com sangue fresco. Por trás de um grande homem há sempre — é bem verdade — uma grande mulher.

Desde então, porcos e aldeões não voltaram a ver Tó, nem tão-pouco ouviram algo mais a respeito dele. Desapareceu insuspeitamente, estranhamente e sem deixar rasto. Os porquinhos todos emagreceram de saudades assaz gigantescas. E, assim, a pocilga comunitária foi forçada ao término, porquanto todos os porquinhos regressaram à respectiva tutela.
O doutor Costa Leta — dirá o povo que por ter de ler a própria letra, assevera a mulher que foi de desgosto profissional — padeceu num processo de miopia gradual e acabou, ao fim de um punhado de meses, por ficar totalmente cego. O diagnóstico do seu colega oftalmologista apontava para excessos de alimentação perpetrados na forma continuada, que terão feito disparar o ácido úrico de forma bombástica. Entre outras coisas, mas principalmente, o médico foi proibido de ingerir carne de porco.
De resto, e por mais tempo que passe, Tó não será jamais esquecido pelos habitantes locais que com ele se cruzaram. Aliás, ainda hoje muito se muge na aldeia acerca disso. Mmmuuuuu de honra!